

Marcela Marcos
Publicado em 17 de julho de 2026 às 12:48h.
Você trabalha além do horário, entrega tudo sem falhas e nunca cria atritos. Além disso, sempre se voluntaria para aquelas tarefas operacionais que ninguém quer assumir. No papel, parece uma pessoa perfeita no ambiente de trabalho. Mas, na hora das promoções e efetivações, você acaba invisível. Esse cenário tem nome: síndrome da boa garota.
Na vida corporativa, a recompensa por dizer “sim” o tempo todo quase nunca é o reconhecimento. Costuma ser, na verdade, mais uma pilha de tarefas para fazer.
Entender como a síndrome da boa garota trava o crescimento profissional é o que pode fazer sua carreira deslanchar e colocá-la na trajetória de liderança.
A necessidade de ser uma funcionária super-prestativa vai além do escritório. Esse padrão começa ainda na infância.
Enquanto meninos costumam ser incentivados a serem ousados, qualidades como a obediência e a capacidade de evitar conflitos são elogiadas nas meninas, que crescem associando agradar os outros ao próprio valor.
O conceito ganhou força com o trabalho da psicóloga Lois P. Frankel, autora do livro Nice Girls Don’t Get the Corner Office. Ela mapeou como comportamentos aprendidos na infância, como esperar a sua vez de falar ou evitar debates, podem sabotar as mulheres no trabalho.
Nesse contexto, atitudes como buscar aprovação dos outros cria profissionais que têm pavor de errar. Essas pessoas esperam que o trabalho duro fale por si só.
Um artigo publicado pela Harvard Business Review mostra que as mulheres são muito mais propensas a aceitar as chamadas “tarefas não-promovíveis”, o famoso trabalho invisível:
Essas funções ajudam a equipe, mas têm impacto zero nas métricas que a liderança avalia na hora de promover alguém. É um desperdício de energia que causa estresse, mas não te coloca no radar das promoções.
O impacto disso aparece nos dados de mercado. O relatório Women in the Workplace, da McKinsey, mostra que para cada 100 homens promovidos para cargos iniciais de gerência, 93 mulheres conseguem o mesmo avanço, um número menor, portanto.
Já no Brasil o Panorama Mulheres (Insper) reforça essa disparidade, mostrando a queda da presença feminina nos cargos de topo.
Um dos principais termômetros da síndrome da boa garota está na comunicação. Jovens que buscam validação tendem a suavizar as falas com expressões como “desculpe incomodar” ou “posso estar errada, mas…”.
Corte esses vícios. Se atrasou para responder uma mensagem, não peça desculpas exageradas; prefira escrever “obrigada pela paciência”. Também entenda que você tem espaço para defender suas ideias.
Faça uma auditoria nas suas tarefas da semana. Quantas horas você gasta resolvendo burocracias para agradar os outros?
Aprenda a dizer “não” com base nas suas prioridades. Por exemplo, se pedirem para você anotar a ata de uma reunião em que você deveria estar conduzindo ou contribuindo com seu ponto de vista, sugira um sistema de rodízio entre todos os presentes.
A síndrome da boa garota também pode aparecer em processos seletivos. Achar que você precisa preencher 100% dos requisitos antes de se candidatar a uma vaga é um reflexo dessa insegurança.
Se você não tem certeza se está chegou o momento de assumir mais espaço, documente seus resultados e faça com que eles cheguem até os chefes. Agende conversas recorrentes de alinhamento com seu gestor para falar sobre suas metas e ambições de crescimento.
Ao começar a estabelecer limites, é normal sentir culpa. O risco está em recuar diante do primeiro problema.
Quando você passa a recusar demandas, alguns colegas podem reagir com estranhamento. Afinal, eles estavam acostumados com sua disponibilidade. Mesmo assim, mantenha a firmeza e evite ficar na defensiva.
Além disso, não tente mudar todos os seus comportamentos em um único dia. Vá aos poucos. Quando pedirem um favor que tire o seu foco, não diga “sim” de imediato. Experimente responder: “Vou olhar minhas entregas prioritárias e te aviso se consigo ajudar ainda hoje”.
A autonomia é construída nas pequenas tarefas do dia a dia. Aprender a priorizar o seu próprio tempo e desenvolvimento não é egoísmo. Não pense assim. É ter amor próprio e protagonismo para tomar as próprias decisões.
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Você também pode acessar o curso online e gratuito Comunicação Assertiva no Trabalho, do Na Prática, para aprender como expor melhor suas ideias, gerenciar conflitos e mobilizar as pessoas em torno dos seus projetos. Há certificado para quem concluí-lo. Acesse aqui.
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Como saber se tenho a síndrome da boa garota?
Você se identifica com algum destes pontos? Tem dificuldade em dizer não, pede desculpas por tudo, evitar dar suas opiniões para evitar debates e tem muito medo de receber críticas.
Esse problema afeta apenas as mulheres?
Não, a síndrome pode afetar qualquer pessoa no ambiente de trabalho. Entretanto, não podemos esquecer que os estudos mostram que a pressão social para ser prestativa é exercida de forma muito mais intensa sobre as mulheres desde a infância, gerando impactos mais severos na carreira feminina.
Agir com firmeza não vai estragar o clima com a equipe?
Não. Existe uma linha clara entre firmeza e agressividade. Colocar limites com educação, usando dados e prazos reais, constrói uma reputação de profissional madura e confiável. É exatamente o que as empresas procuram em futuras lideranças. Tem tudo a ver, como já dissemos, com protagonismo.